segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Quinze crônicas para dois mil e quinze

No final de 2014, escrevi meu plano de metas para o ano de 2015, sendo várias delas irreais, algumas fáceis demais, e algumas interessantes e não impossíveis. Este não é um texto sobre todas estas metas. Este é um texto sobre uma uma meta específica, que se enquadra entre as interessantes e não impossíveis, escrita ao final do ano passado: escrever quinze crônicas.
Na época me pareceu razoável, em um ano inteiro, escrever quinze crônicas, visto que a qualidade das mesmas não estava em questão, apenas escrevê-las. Naturalmente, eu, como a maioria das pessoas desta galáxia conhecida, se esquece das metas que escreveu para o ano duas semanas após escrevê-las. E então, em meio as correrias da vida, trabalho, mestrado e cervejas quando possível, não escrevi nada o ano todo, a não ser alguns três ou quatro poemas em noites aleatórias de alegria ou tristeza.
Dentre tudo o que eu queria para o meu 2015, não ter escrito essas crônicas foi a meta não cumprida que, de longe, mais me incomodou. Por isso, como ainda restam quatro dias até o final deste ano, decido botar pé firme e cumprir a meta. Para isto, usarei de um artifício pouco conhecido no universo das crônicas, que acabei de inventar: escrever todas as quinze crônicas em uma só.
Após esta breve introdução, justificativa e metodologia deste projeto petulante de multicrônica, seguem então aqui as quinze histórias criadas neste fim de ano, obviamente narradas de maneira mais sucinta que o comum.

1- O apaixonado.
Ele se vestiu impecavelmente, perfumou-se e ajeitou os cabelos. Estava com frio na barriga. Aquele seria o dia em que finalmente declararia o seu amor. Já fazia três anos que trabalhavam em salas próximas, na mesma empresa. Ela era contadora e, diziam, fazia um trabalho impecável. Todos os dias os dois se cumprimentavam com um bom dia caloroso e um sorriso. Tentou convidá-la pra sair uma vez, um ano atrás, mas com o nervosismo, virou o café quente num gole só e engasgou. Ficou com tanta vergonha que demorou alguns meses até voltar a cumprimentá-la, e mais alguns para ter a coragem de convidá-la para um jantar. Comeriam pizza. Ele ficou surpreso quando ela aceitou. Ao sair de casa, a caminho do metrô, foi atropelado por um ônibus. Ela ligou pra entender o porquê de uma hora de atraso, e se ele viria mesmo. Ele não atendeu. "São mesmo todos uns canalhas".

2 - O porta-retrato
Na foto, dona Marilda sorridente preparava uma feijoada em uma panela de barro, enquanto seu Afrânio furioso ia na direção de um pote de mel que caía em lentamente no chão, após Pedro tê-lo acertado com um bodoque feito por seu avô Olavo, que não estava na foto. Mariana, a segunda mais nova, olhava assustada em direção ao pote de mel, já com a boca aberta, chorando em seu tom mais agudo porque antes de Pedro atirar no pote de mel, havia ameaçado atirar nela. Bardoso, o cão velho e cansado, escondido embaixo da mesa, já não se incomodava com a confusão, já rotineira de todos os domingos. Eu, olhava a cena de longe, de dentro do berço, e pensava: "Em que família eu fui nascer! Essa cena daria um ótimo porta-retrato".

3- Opiniões políticas
A economia vai mal, sobe o dolar. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! A educação no Brasil fica mal colocada em exames internacionais. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! O trânsito não anda. Todo dia às seis da tarde é esse inferno. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Essas chuvas fortes não têm vazão nos bueiros entupidos e causam enchentes todo começo de ano. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Meu chefe é um boçal, me trata como um lixo, e eu não posso reclamar senão perco o emprego. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Meu casamento é uma tragédia. Não somos felizes há nos. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Bati o mindinho na quina de mesa. PUTA QUE O PARIU! É TUDO CULPA DESSES POLÍTICOS LADRÕES, PT, PSDB, CORRUPTOS MALDITOS!

4- A crônica mais curta da história da humanidade, onde o título da crônica é significativamente maior que o próprio texto da mesma e, mesmo assim, nem o título, nem o texto, não significam absolutamente nada.
Viu?

5- Aí a gente vai vendo
Aí a gente vai vendo que é o que todo mundo faz, que é desse jeito mesmo. E aí não tem muito motivo pra mudar, porque ninguém muda também. E aí a gente vai seguindo, todo dia na mesma, e trabalha porque tem que trabalhar, come porque tem que comer, dorme porque tem que dormir, transa porque tem que transar, e relata tudo online, porque tem que relatar. E aí a gente vai vendo que tem que parecer ser feliz mesmo, porque todo mundo se esforça muito pra parecer ser feliz, então deve ser importante por algum motivo. E aí a gente vai se curtindo e se comentando, de alguma forma preenchendo um vazio imenso no fundo do peito. E aí a gente vai vendo que é tudo mesmo muito sem graça, sem sal, sem motivo. E aí a gente vai ficando triste de fingir algum sentido pra isso tudo. E aí aos pouquinhos, bem aos pouquinhos, a gente vai definhando, definhando... E vai naturalizando essa mediocridade. E aí a gente vai vendo que não valia a pena mesmo, mas que agora já foi, então deixa quieto. E aí a gente deixa. E aí a gente não vê mais nada.

6- O dragão gripado
Floripo sempre foi um dragão muito honesto e bondoso, que respeitava seus colegas dragões e todas as formas de vida, inclusive os humanos. Floripo vivia em uma montanha que ficava nos arredores de Santiago, no Chile, muito próxima a uma aldeia de nativos Quíchuas, que sempre faziam oferendas generosas para Floripo, embora ele os protegesse sem precisar desses agrados, já que fazia parte de sua índole proteger as formas de vida mais vulneráveis. Certo dia, Floripo estava gripado, e foi até a aldeia para buscar algumas ervas que o ajudariam no tratamento. Quando estava bem próximo, chegando a seu destino, não conseguiu segurar um espirro, que se transformou numa gigante bola de fogo e destruiu toda a aldeia, assassinando instantaneamente todos os moradores. Floripo ali sentou e chorou. Por sete dias e sete noites seguidas, lágrimas rolaram de seus olhos gigantes, formando um lago no lugar aonde um dia existira a aldeia Quíchua. Floripo voltou para sua montanha e nunca mais saiu de lá, de tristeza e remorso. Dizem que quem se banha no lago formado por suas lágrimas nunca mais ambiciona qualquer poder sobre os outros na vida, porque experimenta por alguns segundos o que Floripo sentiu ao machucar quem mais esperava por sua proteção.

7- Conversa Religiosa
Um cristão, um ateu e um budista estavam num bar, dividindo uma cerveja. Então conversaram sobre futebol, e discutiram qual dos três times que torciam possuía os títulos mais importantes. Depois conversaram sobre tecnologia, e um deles citou um artigo que tinha lido, sobre aplicativos para organizar e otimizar o tempo. Na sequência, falaram sobre como as coisas estavam corridas, e um deles mencionou que o filho pequeno estava brigando muito na escola, e ele não sabia muito bem como lidar com isso. Então comentaram sobre os filmes que tinham visto recentemente, e um deles comentou que assistira "Tudo sobre minha mãe", e como era lindo aquele filme. E então conversaram sobre religião, e como cada um tinha suas angústias, medos e desejos em relação ao que acreditavam. Pediram a conta, dividiram-na em três e marcaram de sair de novo na próxima quinta-feira.

8- A oitava crônica
A oitava crônica chegou de sopetão, e deu logo um sopapo nas outras: Quem vocês pensam que são? Quem vocês pensam que representam? Vocês não são nada! Eu espero sinceramente que saibam disso. Na realidade, essas tentativas estapafúrdias de minitextos, sejam estes narrativas ficcionais ou textos de opinião, são só uma tentativa patética do autor ser um pouco lido, e por consequência um pouco visto. Vocês só existem pra servir a esse ego, entendem? É só pra pessoas aleatórias, que sabem tão miseravelmente nada da vida quanto o próprio autor das crônicas, gastarem uma parte de suas vidas que nunca vai ser recuperada para, quem sabe, exatamente por serem ignorantes, acharem que algumas dessas frases possuem algum sentido especial ou se encaixam de uma forma bacana, quando na verdade tudo isso é patético. Eu teria vergonha de ser uma crônica como qualquer uma de vocês. Fodam-se.

9- Debaixo d´água
Dizem algumas pesquisas científicas que, debaixo d´água, nós temos uma super audição. Conseguimos aumentar a amplitude das frequências sonoras que escutamos quando submergimos. Por isso, não só a gente escuta diferente, mas a gente escuta mais. No mundo, a impressão que dá é que a gente anda precisando de um dilúvio, que botasse todo mundo embaixo d´água. O nosso automatismo chegou num ponto em que a gente não só não sabe se escutar, mas parece que nunca aprendeu. Todas as conversas e discussões já começam de um ponto em que não estamos dispostos a abrir mão, e antes que interlocutor termine o que está dizendo, nós já estamos elaborando qual vai ser nossa resposta, como mostrar que estamos certos ou contar a nossa experiência. Como se o outro não acrecentasse muita coisa. Ele está ali pra aprender com a gente, pra nos conhecer. E aí deixamos passar tudo o que o outro poderia construir de significado na nossa história. E se o outro precisa de algo, a gente não tem escuta pra perceber, e deixa o outro sofrer sozinho. Talvez a gente precise mesmo ficar um tempo afogados. Pra escutar melhor. Ou pelo menos pra tomar o susto da apneia e ver se esse soluço de falas repetidas sem fim passa.

10- Lúcia
Lúcia era uma guerreira que comandava legiões de amazonas, armadas com lanças e espadas elas avançam sobre os campos dourados para a derradeira batalha contra os soldados de Nápoles, e tudo indica uma vitória fácil. Troca o sonho. Lúcia agora está voando em cima de uma águia de nome Olívia, que a leva para conhecer as doze cachoeiras sagradas do vale vermelho, com águas cristalinas e peixes que brilham incandescentes. Troca o sonho. Lúcia está no dentista, ele pede para que abra a boca, e ao examiná-la diz que seu canino superior direito está grávido de gêmeos, e será preciso fazer uma cesariana de emergência. Troca o sonho. Lúcia está comandando uma reunião de negócios, a empresa vai mal e os diretores precisam que a equipe encontre o mais rápido possível uma maneira de aumentar as vendas de churros de doce de leite. Troca o sonho. Lúcia foi enterrada viva ao lado de sua gatinha, a pequena doroty, e as duas estão ficando sem ar. Troca o sonho. Não. O ar está acabando. Troca o sonho! Não. O nariz tenta puxar desesperado algum oxigênio, doroty está se debatendo. TROCA O SONHO! Não. O pescoço aperta. O peito aperta. O cérebro desiste. Troca, por favor, o sonho. Não.

11- O vinho
O vinho, perfeitamente harmonizado, aveludado, com aromas frutados e acidez e taninos cuidadosamente equilibrados, aguardava na adega de um tal Empório quando foi retirado de seu descanso. Algumas horas depois, já na casa de seu comprador, foi um pouco refrigerado em uma geladeira com uma luz interna que não precisava ser tão branca, já que toda vez o cegava quando era aberta. No momento do jantar, o comprador (provavelmente o dono da casa), pegou o vinho e o colocou na mesa. A convidada sentada em um lado da mesa, um pouco tímida, parecia ser a primeira vez que visitava a casa do moço. Do outro lado, o anfitrião, tentava aparentar alguma segurança e fazê-la rir, mas também estava visivelmente nervoso. Ele aguardou um pouco, e logo começou a ser tomado pelos dois. O jantar ficou pronto, um risoto de salmão e queijos que algum colega sauvignon blanc provavelmente ajudou a preparar. Tomaram-no. Uma taça, duas, três, até o final. A conversa já fluía com uma leveza sutil, e um toque adocicado nas palavras. As mãos às vezes se tocavam, a pele arrepiava. Ele havia dado conta de desarmá-los de seus julgamentos, e do medo de serem julgados. Levou-os aos beijos, e levou-os a cama. Dormiram abraçados, com sorrisos suaves nas faces. Era um merlot.

12- Uma ideia bacana que nunca será realizada
Ideia de competição: pegamos um astrólogo, um cientista social e um psicólogo. Para o astrólogo daremos todas as informações sobre hora e local de nascimento para que consiga construir o mapa astral do indivíduo, conseguindo identificar seu signo, ascendentes e planetas com tranquilidade. Para o cientista social, daremos outras informações sobre o mesmo indivíduo, como a renda familiar atual e a trajetória econômica da família, local onde nasceu, escola que frequentou, nível de escolaridade dos pais e principais influências culturais a que teve acesso (livros, filmes, tipo de música, teatro, etc). Para o psicólogo, não daremos nem as informações para a construção do mapa astral, nem as características socioeconômicas e culturais. Daremos apenas o acesso ao facebook do mesmo indivíduo, e todas as postagens que fez, comentou e curtiu. Damos aos três vinte e quatro horas, para que apresentem o máximo de informações sobre o indivíduo em questão e as principais características de sua personalidade, ideologias e objetivos. Quem será que acertaria mais?

13- Jesus
Jesus abriu um livro de Saramago para ler antes de dormir. Acabou pegando no sono. No dia seguinte, acordou cedo. Tinha uma reunião com representantes palestinos e israelenses logo às seis da manhã, para mais uma vez discutir possibilidades de diminuir os conflitos nas regiões afetadas. A reunião não foi muito bem. As nove horas, outra reunião, esta com o papa Francisco. Conversaram sobre homofobia e machismo, e Jesus deu novas instruções ao papa, mesmo sabendo da resistência que enfrentaria ao tentar colocá-las em prática. Antes do almoço visitou algumas igrejas evangélicas e promoveu curas a indivíduos de fé sincera. Parou para almoçar num restaurante vegano de São Paulo, cujos falafels eram muito elogiados. Gostou e multiplicou bebidas para todos que almoçaram ali, além dos salários de todos os funcionários. Passou a tarde toda em expedição pela Ásia, aonde realizou algumas reuniões com chefes hindus e budistas. Era muito importante para o ocidente continuar recebendo influências das ideologias orientais, e os acordos de intercâmbio precisavam ser renovados. Aproveitou para fazer uma aula de yoga ashtanga. Passou por Portugal para jantar, um risoto de frutos do mar divino. Resolveu que naquele dia já não havia mais muito o que fazer. Precisava descansar, pois os próximos dois dias seriam intensos na África e Europa. Chorou silenciosamente até dormir.

14- Haikai
O Crisântemo,
Flutuava sereno,
morto na água.

15- Como termina
Já fazia oito anos que estavam juntos. Era um dia de comemoração, e ele comprou um vinho tinto merlot para comemorarem. Era da mesma vinícola que o merlot que tomaram em seu terceiro encontro, em sua antiga casa, anos atrás. Quase não ficaram juntos, a história é ótima: Após três anos reunindo coragem para convidá-la para sair, no dia do primeiro encontro ele foi atropelado por um ônibus. Quebrou uma perna, os dois braços e duas costelas. Ela ficou furiosa por ele não ter aparecido no horário marcado, nem dado sinal de vida, e fez questão de não querer saber dele por mais de uma semana. Após perceber sua ausência constante na empresa, resolveu perguntar como quem não quer saber de nada, e descobriu do acidente. Foi chorando para o hospital. O sorriso que ele deu ao vê-la ali, não tinha preço. Era como se cada célula de seu corpo engessado fosse tocada por uma corrente de alegria, e as dores todas passaram por horas. Ela encostou os lábios nos lábios dele, e disse "Eu estou aqui, eu vou ficar aqui com você". E no fundo do coração, sem qualquer explicação que dê conta, ele sabia que ela não iria mais embora de perto dele, nunca mais.

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