segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Quinze crônicas para dois mil e quinze

No final de 2014, escrevi meu plano de metas para o ano de 2015, sendo várias delas irreais, algumas fáceis demais, e algumas interessantes e não impossíveis. Este não é um texto sobre todas estas metas. Este é um texto sobre uma uma meta específica, que se enquadra entre as interessantes e não impossíveis, escrita ao final do ano passado: escrever quinze crônicas.
Na época me pareceu razoável, em um ano inteiro, escrever quinze crônicas, visto que a qualidade das mesmas não estava em questão, apenas escrevê-las. Naturalmente, eu, como a maioria das pessoas desta galáxia conhecida, se esquece das metas que escreveu para o ano duas semanas após escrevê-las. E então, em meio as correrias da vida, trabalho, mestrado e cervejas quando possível, não escrevi nada o ano todo, a não ser alguns três ou quatro poemas em noites aleatórias de alegria ou tristeza.
Dentre tudo o que eu queria para o meu 2015, não ter escrito essas crônicas foi a meta não cumprida que, de longe, mais me incomodou. Por isso, como ainda restam quatro dias até o final deste ano, decido botar pé firme e cumprir a meta. Para isto, usarei de um artifício pouco conhecido no universo das crônicas, que acabei de inventar: escrever todas as quinze crônicas em uma só.
Após esta breve introdução, justificativa e metodologia deste projeto petulante de multicrônica, seguem então aqui as quinze histórias criadas neste fim de ano, obviamente narradas de maneira mais sucinta que o comum.

1- O apaixonado.
Ele se vestiu impecavelmente, perfumou-se e ajeitou os cabelos. Estava com frio na barriga. Aquele seria o dia em que finalmente declararia o seu amor. Já fazia três anos que trabalhavam em salas próximas, na mesma empresa. Ela era contadora e, diziam, fazia um trabalho impecável. Todos os dias os dois se cumprimentavam com um bom dia caloroso e um sorriso. Tentou convidá-la pra sair uma vez, um ano atrás, mas com o nervosismo, virou o café quente num gole só e engasgou. Ficou com tanta vergonha que demorou alguns meses até voltar a cumprimentá-la, e mais alguns para ter a coragem de convidá-la para um jantar. Comeriam pizza. Ele ficou surpreso quando ela aceitou. Ao sair de casa, a caminho do metrô, foi atropelado por um ônibus. Ela ligou pra entender o porquê de uma hora de atraso, e se ele viria mesmo. Ele não atendeu. "São mesmo todos uns canalhas".

2 - O porta-retrato
Na foto, dona Marilda sorridente preparava uma feijoada em uma panela de barro, enquanto seu Afrânio furioso ia na direção de um pote de mel que caía em lentamente no chão, após Pedro tê-lo acertado com um bodoque feito por seu avô Olavo, que não estava na foto. Mariana, a segunda mais nova, olhava assustada em direção ao pote de mel, já com a boca aberta, chorando em seu tom mais agudo porque antes de Pedro atirar no pote de mel, havia ameaçado atirar nela. Bardoso, o cão velho e cansado, escondido embaixo da mesa, já não se incomodava com a confusão, já rotineira de todos os domingos. Eu, olhava a cena de longe, de dentro do berço, e pensava: "Em que família eu fui nascer! Essa cena daria um ótimo porta-retrato".

3- Opiniões políticas
A economia vai mal, sobe o dolar. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! A educação no Brasil fica mal colocada em exames internacionais. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! O trânsito não anda. Todo dia às seis da tarde é esse inferno. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Essas chuvas fortes não têm vazão nos bueiros entupidos e causam enchentes todo começo de ano. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Meu chefe é um boçal, me trata como um lixo, e eu não posso reclamar senão perco o emprego. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Meu casamento é uma tragédia. Não somos felizes há nos. É tudo culpa desses políticos ladrões, PT, PSDB, corruptos malditos! Bati o mindinho na quina de mesa. PUTA QUE O PARIU! É TUDO CULPA DESSES POLÍTICOS LADRÕES, PT, PSDB, CORRUPTOS MALDITOS!

4- A crônica mais curta da história da humanidade, onde o título da crônica é significativamente maior que o próprio texto da mesma e, mesmo assim, nem o título, nem o texto, não significam absolutamente nada.
Viu?

5- Aí a gente vai vendo
Aí a gente vai vendo que é o que todo mundo faz, que é desse jeito mesmo. E aí não tem muito motivo pra mudar, porque ninguém muda também. E aí a gente vai seguindo, todo dia na mesma, e trabalha porque tem que trabalhar, come porque tem que comer, dorme porque tem que dormir, transa porque tem que transar, e relata tudo online, porque tem que relatar. E aí a gente vai vendo que tem que parecer ser feliz mesmo, porque todo mundo se esforça muito pra parecer ser feliz, então deve ser importante por algum motivo. E aí a gente vai se curtindo e se comentando, de alguma forma preenchendo um vazio imenso no fundo do peito. E aí a gente vai vendo que é tudo mesmo muito sem graça, sem sal, sem motivo. E aí a gente vai ficando triste de fingir algum sentido pra isso tudo. E aí aos pouquinhos, bem aos pouquinhos, a gente vai definhando, definhando... E vai naturalizando essa mediocridade. E aí a gente vai vendo que não valia a pena mesmo, mas que agora já foi, então deixa quieto. E aí a gente deixa. E aí a gente não vê mais nada.

6- O dragão gripado
Floripo sempre foi um dragão muito honesto e bondoso, que respeitava seus colegas dragões e todas as formas de vida, inclusive os humanos. Floripo vivia em uma montanha que ficava nos arredores de Santiago, no Chile, muito próxima a uma aldeia de nativos Quíchuas, que sempre faziam oferendas generosas para Floripo, embora ele os protegesse sem precisar desses agrados, já que fazia parte de sua índole proteger as formas de vida mais vulneráveis. Certo dia, Floripo estava gripado, e foi até a aldeia para buscar algumas ervas que o ajudariam no tratamento. Quando estava bem próximo, chegando a seu destino, não conseguiu segurar um espirro, que se transformou numa gigante bola de fogo e destruiu toda a aldeia, assassinando instantaneamente todos os moradores. Floripo ali sentou e chorou. Por sete dias e sete noites seguidas, lágrimas rolaram de seus olhos gigantes, formando um lago no lugar aonde um dia existira a aldeia Quíchua. Floripo voltou para sua montanha e nunca mais saiu de lá, de tristeza e remorso. Dizem que quem se banha no lago formado por suas lágrimas nunca mais ambiciona qualquer poder sobre os outros na vida, porque experimenta por alguns segundos o que Floripo sentiu ao machucar quem mais esperava por sua proteção.

7- Conversa Religiosa
Um cristão, um ateu e um budista estavam num bar, dividindo uma cerveja. Então conversaram sobre futebol, e discutiram qual dos três times que torciam possuía os títulos mais importantes. Depois conversaram sobre tecnologia, e um deles citou um artigo que tinha lido, sobre aplicativos para organizar e otimizar o tempo. Na sequência, falaram sobre como as coisas estavam corridas, e um deles mencionou que o filho pequeno estava brigando muito na escola, e ele não sabia muito bem como lidar com isso. Então comentaram sobre os filmes que tinham visto recentemente, e um deles comentou que assistira "Tudo sobre minha mãe", e como era lindo aquele filme. E então conversaram sobre religião, e como cada um tinha suas angústias, medos e desejos em relação ao que acreditavam. Pediram a conta, dividiram-na em três e marcaram de sair de novo na próxima quinta-feira.

8- A oitava crônica
A oitava crônica chegou de sopetão, e deu logo um sopapo nas outras: Quem vocês pensam que são? Quem vocês pensam que representam? Vocês não são nada! Eu espero sinceramente que saibam disso. Na realidade, essas tentativas estapafúrdias de minitextos, sejam estes narrativas ficcionais ou textos de opinião, são só uma tentativa patética do autor ser um pouco lido, e por consequência um pouco visto. Vocês só existem pra servir a esse ego, entendem? É só pra pessoas aleatórias, que sabem tão miseravelmente nada da vida quanto o próprio autor das crônicas, gastarem uma parte de suas vidas que nunca vai ser recuperada para, quem sabe, exatamente por serem ignorantes, acharem que algumas dessas frases possuem algum sentido especial ou se encaixam de uma forma bacana, quando na verdade tudo isso é patético. Eu teria vergonha de ser uma crônica como qualquer uma de vocês. Fodam-se.

9- Debaixo d´água
Dizem algumas pesquisas científicas que, debaixo d´água, nós temos uma super audição. Conseguimos aumentar a amplitude das frequências sonoras que escutamos quando submergimos. Por isso, não só a gente escuta diferente, mas a gente escuta mais. No mundo, a impressão que dá é que a gente anda precisando de um dilúvio, que botasse todo mundo embaixo d´água. O nosso automatismo chegou num ponto em que a gente não só não sabe se escutar, mas parece que nunca aprendeu. Todas as conversas e discussões já começam de um ponto em que não estamos dispostos a abrir mão, e antes que interlocutor termine o que está dizendo, nós já estamos elaborando qual vai ser nossa resposta, como mostrar que estamos certos ou contar a nossa experiência. Como se o outro não acrecentasse muita coisa. Ele está ali pra aprender com a gente, pra nos conhecer. E aí deixamos passar tudo o que o outro poderia construir de significado na nossa história. E se o outro precisa de algo, a gente não tem escuta pra perceber, e deixa o outro sofrer sozinho. Talvez a gente precise mesmo ficar um tempo afogados. Pra escutar melhor. Ou pelo menos pra tomar o susto da apneia e ver se esse soluço de falas repetidas sem fim passa.

10- Lúcia
Lúcia era uma guerreira que comandava legiões de amazonas, armadas com lanças e espadas elas avançam sobre os campos dourados para a derradeira batalha contra os soldados de Nápoles, e tudo indica uma vitória fácil. Troca o sonho. Lúcia agora está voando em cima de uma águia de nome Olívia, que a leva para conhecer as doze cachoeiras sagradas do vale vermelho, com águas cristalinas e peixes que brilham incandescentes. Troca o sonho. Lúcia está no dentista, ele pede para que abra a boca, e ao examiná-la diz que seu canino superior direito está grávido de gêmeos, e será preciso fazer uma cesariana de emergência. Troca o sonho. Lúcia está comandando uma reunião de negócios, a empresa vai mal e os diretores precisam que a equipe encontre o mais rápido possível uma maneira de aumentar as vendas de churros de doce de leite. Troca o sonho. Lúcia foi enterrada viva ao lado de sua gatinha, a pequena doroty, e as duas estão ficando sem ar. Troca o sonho. Não. O ar está acabando. Troca o sonho! Não. O nariz tenta puxar desesperado algum oxigênio, doroty está se debatendo. TROCA O SONHO! Não. O pescoço aperta. O peito aperta. O cérebro desiste. Troca, por favor, o sonho. Não.

11- O vinho
O vinho, perfeitamente harmonizado, aveludado, com aromas frutados e acidez e taninos cuidadosamente equilibrados, aguardava na adega de um tal Empório quando foi retirado de seu descanso. Algumas horas depois, já na casa de seu comprador, foi um pouco refrigerado em uma geladeira com uma luz interna que não precisava ser tão branca, já que toda vez o cegava quando era aberta. No momento do jantar, o comprador (provavelmente o dono da casa), pegou o vinho e o colocou na mesa. A convidada sentada em um lado da mesa, um pouco tímida, parecia ser a primeira vez que visitava a casa do moço. Do outro lado, o anfitrião, tentava aparentar alguma segurança e fazê-la rir, mas também estava visivelmente nervoso. Ele aguardou um pouco, e logo começou a ser tomado pelos dois. O jantar ficou pronto, um risoto de salmão e queijos que algum colega sauvignon blanc provavelmente ajudou a preparar. Tomaram-no. Uma taça, duas, três, até o final. A conversa já fluía com uma leveza sutil, e um toque adocicado nas palavras. As mãos às vezes se tocavam, a pele arrepiava. Ele havia dado conta de desarmá-los de seus julgamentos, e do medo de serem julgados. Levou-os aos beijos, e levou-os a cama. Dormiram abraçados, com sorrisos suaves nas faces. Era um merlot.

12- Uma ideia bacana que nunca será realizada
Ideia de competição: pegamos um astrólogo, um cientista social e um psicólogo. Para o astrólogo daremos todas as informações sobre hora e local de nascimento para que consiga construir o mapa astral do indivíduo, conseguindo identificar seu signo, ascendentes e planetas com tranquilidade. Para o cientista social, daremos outras informações sobre o mesmo indivíduo, como a renda familiar atual e a trajetória econômica da família, local onde nasceu, escola que frequentou, nível de escolaridade dos pais e principais influências culturais a que teve acesso (livros, filmes, tipo de música, teatro, etc). Para o psicólogo, não daremos nem as informações para a construção do mapa astral, nem as características socioeconômicas e culturais. Daremos apenas o acesso ao facebook do mesmo indivíduo, e todas as postagens que fez, comentou e curtiu. Damos aos três vinte e quatro horas, para que apresentem o máximo de informações sobre o indivíduo em questão e as principais características de sua personalidade, ideologias e objetivos. Quem será que acertaria mais?

13- Jesus
Jesus abriu um livro de Saramago para ler antes de dormir. Acabou pegando no sono. No dia seguinte, acordou cedo. Tinha uma reunião com representantes palestinos e israelenses logo às seis da manhã, para mais uma vez discutir possibilidades de diminuir os conflitos nas regiões afetadas. A reunião não foi muito bem. As nove horas, outra reunião, esta com o papa Francisco. Conversaram sobre homofobia e machismo, e Jesus deu novas instruções ao papa, mesmo sabendo da resistência que enfrentaria ao tentar colocá-las em prática. Antes do almoço visitou algumas igrejas evangélicas e promoveu curas a indivíduos de fé sincera. Parou para almoçar num restaurante vegano de São Paulo, cujos falafels eram muito elogiados. Gostou e multiplicou bebidas para todos que almoçaram ali, além dos salários de todos os funcionários. Passou a tarde toda em expedição pela Ásia, aonde realizou algumas reuniões com chefes hindus e budistas. Era muito importante para o ocidente continuar recebendo influências das ideologias orientais, e os acordos de intercâmbio precisavam ser renovados. Aproveitou para fazer uma aula de yoga ashtanga. Passou por Portugal para jantar, um risoto de frutos do mar divino. Resolveu que naquele dia já não havia mais muito o que fazer. Precisava descansar, pois os próximos dois dias seriam intensos na África e Europa. Chorou silenciosamente até dormir.

14- Haikai
O Crisântemo,
Flutuava sereno,
morto na água.

15- Como termina
Já fazia oito anos que estavam juntos. Era um dia de comemoração, e ele comprou um vinho tinto merlot para comemorarem. Era da mesma vinícola que o merlot que tomaram em seu terceiro encontro, em sua antiga casa, anos atrás. Quase não ficaram juntos, a história é ótima: Após três anos reunindo coragem para convidá-la para sair, no dia do primeiro encontro ele foi atropelado por um ônibus. Quebrou uma perna, os dois braços e duas costelas. Ela ficou furiosa por ele não ter aparecido no horário marcado, nem dado sinal de vida, e fez questão de não querer saber dele por mais de uma semana. Após perceber sua ausência constante na empresa, resolveu perguntar como quem não quer saber de nada, e descobriu do acidente. Foi chorando para o hospital. O sorriso que ele deu ao vê-la ali, não tinha preço. Era como se cada célula de seu corpo engessado fosse tocada por uma corrente de alegria, e as dores todas passaram por horas. Ela encostou os lábios nos lábios dele, e disse "Eu estou aqui, eu vou ficar aqui com você". E no fundo do coração, sem qualquer explicação que dê conta, ele sabia que ela não iria mais embora de perto dele, nunca mais.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O acusado


- Assassino! Assassino! A multidão gritava e apontava, estavam enlouquecidos. Queriam justiça.
O culpado é claro, dizia que não tinha feito nada, que nem sabia do que se tratava. Estava em casa fazendo o jantar, quando de repente os policiais invadem a casa e o prendem por homicídio. O juiz grita:
- Ordem no tribunal, ordem no tribunal! E faz-se o silêncio. – O senhor está me dizendo que não sabe do que está sendo acusado?
- Não sei, não senhor.
Quando o sujeito disse isso, deu pra ouvir um “mentiroso!” gritado lá do meio, mas quem quer que tenha gritado se calou bem rápido após uma olhadela inquisidora do juiz. Este voltou sua atenção para o acusado e disse:
- Saber o motivo da acusação é um direito seu, filho. O senhor está sendo acusado de assassinar a democracia.
- Como? Eu, assassinar a democracia? Deve haver algum engano! Eu não fiz nada.
- Vocês nunca fazem nada, filho, nunca fazem. Eu ouço isso há 40 anos nesta sala. Nenhum criminoso condenado nunca fez nada, acredite. Mas de qualquer modo, temos que agir de acordo com os procedimentos. Senhor promotor, pode entrevistar o réu.
Um homem alto de bigodes volumosos e escovados e o cabelo penteado para trás se levantou prontamente com uma pasta na mão e foi até perto do sujeito.
- Onde o senhor estava no dia das eleições para deputados e senadores?
- Faz tempo, eu não tenho certeza de todos os lugares que fui. Mas sei que fui votar.
A população que assistia entrou em frenesi. Gritavam e vaiavam, e até voou um chinelo na confusão.
- Assassino! Assassino! Ele confessou! Confessou!
- ORDEM NO TRIBUNAL! As três marteladas e a voz rouca e forte do juiz mais uma vez silenciaram o ambiente.
O promotor deu um sorriso triunfante e continuou com a tortura inquisitória.
- E o senhor, por um acaso, se lembra em todos os candidatos em que votou?
- Para todos os cargos?
- Sim. Para presidente, governador, deputado federal, senador e deputado estadual.
- Não lembro.
- E se não se lembra deles, tampouco sabe os partidos deles?
- Não sei, não senhor.
- O senhor conseguiria me dizer o nome da maioria dos vereadores de sua cidade?
- Todos?!
- Não precisam ser todos, pelo menos a metade já estaria ótimo.
- Não, acho que eu sei dois ou três, só.
A população ria ao fundo.
- O senhor então, pelo menos participa de alguma iniciativa política ou do orçamento participativo de sua cidade? Assistiu a alguma reunião da câmara? Participou de algum abaixo assinado? Sabe quem foram os políticos acusados de corrupção?
- Não.
O sujeito estava cada vez mais cabisbaixo. Não entendia o que estava acontecendo, mas pelas reações do povo que assistia, ele provavelmente não estava indo bem.
- O senhor então confirma que não lembra em quem votou, não sabe os partidos dos candidatos, não acompanha a vida política da sua cidade ou país, nunca participou dessa mesma vida política de qualquer forma além do voto e não faz ideia de quem são os políticos que não cumprem com o seu dever. Certo?
- Certo.
- Só mais uma coisa...
O promotor olhou para todo o povo, para os policiais, para o juiz. Então voltou seus olhos para o réu e disse astutamente, quase que saboreando as palavras.
- O senhor sempre fala mal dos políticos e diz que política não serve para nada?
- Sim.
Dessa vez o silêncio tomou conta do local. Todos ficaram assustados, e até mesmo o juiz (que deveria ser imparcial) deixou escapar uma expressão de horror.
- Encerro minhas perguntas, meritíssimo.
Todos aplaudiram. Alguns até se levantaram para aplaudir. Dessa vez o juiz esperou até que o silêncio se fizesse, e então chamou:
- Por favor, o advogado de defesa queira se apresentar.
Todos se voltaram os olhos para o local onde antes estivera o advogado de defesa, mas agora a cadeira estava vazia. O advogado havia fugido.
O acusado estava pálido, suando frio, sabia que a sua situação estava bem ruim, mas ainda não tinha entendido o porquê ele era (e agora ele já sabia qual sua sentença) um assassino. O juiz se levantou, arrumou sua toga e disse:
- Bom, a quem queremos enganar? Não há defesa para esse sujeito. Declaro-o culpado de homicídio. Assassinou a democracia e sabe-se lá quais mais valores. Será recluso da sociedade por quarenta e cinco anos, em presídio de segurança máxima.
A multidão foi ao delírio. Os oficiais retiraram o acusado e o levaram para fora, algemado. O sujeito saiu chorando.
E assim estava  feito mais um julgamento pelo assassinato da democracia. Costumavam fazer um de anos em anos. Ora prendiam algum desavisado como esse, ora algum político, ora algum revoltoso de esquerda. Sempre havia um culpado para este mesmo crime. E depois de todos os julgamentos, sempre parecia que estava tudo resolvido. Entretanto, de alguma forma que ninguém entendia, a democracia continuava morrendo aos poucos, enquanto todos esperavam por um salvador ou um acusado que aparecesse e resolvesse um problema que, no fundo, pertencia a todos e a cada um.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O homem que não sabia.

Nada, absolutamente nada era o que ele sabia. Ele era um sujeito turrão quando se tratava das crianças: “não pode isso, nem aquilo”, mas no resto era humilde de dar dó. A barba era feita quase nunca, só quando o barbeiro tinha pena e gritava pra rua “entra aqui que a gente dá um jeito nisso!”, e ele entrava. Afinal, ele não sabia fazer a barba também, nem que isso era coisa de se fazer. Alto, forte e com uma voz grossa da grossura mais potente, que assusta gente e bicho, e põe pra correr até o mais valente dos vira-latas do quintal, mas não sabia nada.
Certo dia lhe perguntaram: “Ô seu moço, sabe trocar chuveiro?”
Ele olhou pro céu e pensou como era grande aquela coisa azul bonita, quase tão bonita como o olho da dona vitória do armazém. Se bem o céu derramava aquele mundaréu de água quase sempre, e a dona vitória ele só tinha visto derramar água uma vez, quando o gato dela sumiu três dias seguidos. Foi uma choradeira só, mas o gato voltou e foi só alegria. Deram até festa pro gato. O bicho comeu tanto que morreu, mas não teve velório nem nada e a dona Vitória não derramou água de novo, mas ficou um mês sem sorrir.
“Ei, sabe trocar chuveiro?”
Chuveiro também derramava água, mas ele não sabia como. Nem o céu. Definitivamente não sabia como a água caía do céu. Outra vez perguntou pro seu Pedro onde tinha ido parar o filho dele, Isaías, um garoto calmo que só, e o seu Pedro disse que ele tinha ido pro céu. E o garoto nunca mais apareceu. Outro dia também, sumiu a Marisa da rua de baixo, e todo mundo disse que foi pro céu. Se todo mundo que some vai pro céu, deve ser muito apertado, afinal vive sumindo gente. Será que tem espaço, casa e comida pra todo mundo? Ele achava que não tinha. E se não tinha, eles devem chorar, e é daí que vem a água lá de cima.
“To falando com você!”
Agora, do chuveiro, dá onde vinha tanta água? Porque sem dúvida não cabiam pessoas ali dentro. Parou e olhou para o homem que o tinha chamado. Tinha olhos profundos cor de suspiro de tristeza, segurava o chapéu na mão e tinha o cabelo embaraçado, bem preto. As calças e a camiseta sem dúvida eram muito velhas, mas bem cuidadas. As sobrancelhas estavam inclinadas de uma forma que demonstrava que de alguma maneira, ele já estava incomodado por não ter recebido ainda sua resposta. Uma coisa que ele nunca entendeu (ou nunca soube) é o porquê das pessoas sempre esperarem respostas, se ele não sabia nada. No rio tem água, se não tem chuveiro, tem rio oras. Mas todo mundo faz todos os problemas serem essas coisas desconfortáveis o tempo todo. Ele mesmo não sabia o que era um problema, exatamente. Algo que as pessoas não gostavam, todo mundo tinha, todo mundo diz que passa, mas ninguém sabe como. Se ninguém sabia, não era ele que ia saber. Resolveu responder alguma coisa.
“Uhnnn...”
Mas talvez o rapaz só quisesse trocar o chuveiro, quisesse um diferente, porque estava cansado daquele. Uma vez uma namorada antiga o havia trocado também, e ele não sabia o porquê, mas ela sempre estava cansada, dizia “você não sabe nada mesmo, né? Que gastura que você me dá, seu moço! Fico cansada só de pensar em te explicar as coisas do mundo”. Ela sabia muita coisa, sim. Sabia fazer remendo em calça, bolo de fubá e dar beijo doce. Pra ele, saber tudo isso era saber tanto que não dava nem pra mensurar o tamanho da sabedoria. O rapaz pigarreou e dessa vez parecia que estava mesmo cansado, assim como ela havia ficado um dia.
“Sabe ou não sabe?”
Era o fim, então.
“Sei não.”
E o rapaz foi embora. Que tristeza! Tão boa que tinha sido aquela conversa, que o coração dele se esparramava de contentamento. Pena que acabou, que nem todas. Era pouca gente que resolvia falar com quem não sabia nada, nem tinha nada pra acrescentar, mas quando falavam ele gostava tanto que no caminho de casa comprava um pedaço grande de doce de leite só pra celebrar. Mas nunca soube o motivo, nem como o leite que era mole (daquele jeito que não dá pra pegar com a mão) virava duro, e se o doce era mesmo feito de leite. Talvez fosse feito de outra coisa. Talvez fosse feito do beijo doce dela. É, devia ser isso mesmo. Mas essa é só uma história de um certo dia, que ele nunca soube qual, nem onde, nem quando. Só guardava na memória como um dia gostoso de lembrar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Três histórias que não são de Veríssimo

Sentou-se em frente à escrivaninha, organizou as folhas em branco que estavam espalhadas e colocou o lápis sobre o papel. Precisava de inspiração. Queria escrever um texto como os de Luis Fernando Veríssimo. Uma pequena crônica, talvez engraçada, talvez reflexiva. Com certeza original. Começou assim:
“Janaína tinha trinta e seis anos e se aprontava para o trabalho...”. Não, não ficou legal. Não precisava nomear os personagens, deveria ser algo que valesse mais o momento em si, a situação. Dizer “Janaína” implicava em alguém com uma história, que tinha se casado, com três filhos talvez, e estava infeliz com o casamento, não porque de fato seu casamento era ruim, mas porque deve ser alguma das regras dos homens das letras e roteiristas de filmes que toda personagem de meia-idade e com três filhos está infeliz com seu casamento. Não deveria ser assim. Pelo menos, não em um texto de Luis Fernando Veríssimo, claro. Logo, não em seu texto. Começou outra vez:
“Três palhaços tristes cantavam em sua última apresentação...”. Será? Talvez dramático demais. Eles estavam tristes por que era sua última apresentação? Ou estavam tristes por outro motivo e ainda não sabiam que esta seria sua última apresentação? O circo pegaria fogo. Seria uma história bonita, os três palhaços tristes que padecem cantando em sua última apresentação enquanto o circo pega fogo. Pode ser que um dos três palhaços é que botou fogo no circo por não suportar a idéia de fazer uma última apresentação. Melhor os três juntos! Isso mesmo, eles planejaram tudo antes, iriam por fogo no circo em sua última apresentação, e morreriam cantando. Um ótimo texto, de fato. Mas... E as crianças que estivessem assistindo ao espetáculo? E o desespero da platéia? O mágico não queria morrer, e certamente que seu ilusionismo de nada valeria quando tentasse desaparecer e se esquivar ao fogo. Não conseguiria descrever tal sofrimento com lápis e papel. Nunca gostou de sofrimento. Apagou a primeira frase mais uma vez. Uma última tentativa:
“Certo dia um velhinho cansado fabricou uma tinta que tornava as pessoas invisíveis...”. Agora sim um progresso. Não tinha nome, era só um velhinho, e também não era trágico. Provavelmente será um texto engraçado, com a possibilidade de o velhinho encontrar algumas confusões ao tentar fazer invisível tudo o que ele nunca pode fazer durante toda a vida. Teria o conflito natural que todo bom texto precisa ter, e no final talvez ele percebesse que nem queria mais usar a tinta, e passaria a fazer tudo o que nunca fez e viver o que nunca viveu, sem se esconder. Como quando a gente percebe o valor das coisas somente depois que elas já passaram. Ele podia até mesmo vender a tinta, e ficar rico, e aí perceber que o dinheiro não adianta quando o que importa é a felicidade. Bonitinho. Mas meio chato. Não tem originalidade, é só mais um clichê, sem sal nem açúcar. Pra ter um final assim, que nem escrevesse então.
Estava na hora de desistir. Não conseguia escrever um texto diferente, fato. Poderia nem ser tão bom, mas que só chamasse a atenção por qualquer coisa nova que trouxesse. Mas não parecia possível. Levantou-se, amassou o papel e jogou com raiva no chão. Ao se virar para sair, contudo, algo lhe vem à cabeça. E então voltou a escrever:
“Sentou-se em frente à escrivaninha, organizou as folhas em branco que estavam espalhadas e...”

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Encontro de RPG em Araraquara

"Sábado e Domingo - ERPGA no SESC-Araraquara. O segundo maior encontro de RPG do Brasil.

Sábado ao meio-dia, compareça no sesc e participe do "Quiz Cultural-Nerd" com perguntas sobre conhecimentos gerais, seriados e jogos! Teste seus conhecimentos e ganhe prêmios, é só montar sua equipe de uma até sete pessoas e aparecer!

O evento terá muitas outras coisas legais!
Confira a programação completa em: http://rpgararaquara.blogspot.com/
Ajude a divulgar!"

Bom, estou ajudando a divulgar. Fica aí a dica para quem gosta de card games, RPG, seriados, animes, jogos culturais, etc.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Considerações sobre o cálculo sensorial alfarrogébrico

Conto aqui um fato de importantíssima importância, que de tão importante foi esquecido pelos críticos que só criticam o que não tem relevância alguma, como molhos exóticos e comédias românticas. Aconteceu há vinte anos atrás, no "Congresso Internacional das Ciências Matemáticas e Físicas para o Desenvolvimento do Mínimo Múltiplo Comum", em Viena, na Áustria. Era num hotel luxuoso de nove estrelas com pré-café-da-manhã, café da manhã, lanchinho, pós-lanchinho, almoço, mais lanchino, pré-janta, jantar, ceia, pós-ceia e boquinha da madrugada, além dos coffee-breaks entre as mesas-redondas e baladinha no fim da noite. Naquela ocasião, o excelentíssimo Prof. Dr. Palmilho Presentes Marcundes apresentou uma pesquisa que chocou não só a opinião pública, como também a opinião privada, e alguns coronéis da opinião patrimonialista.

O trabalho em questão explicava uma nova revolução matemática, o cálculo sensorial alfarrogébrico, que tratava-se de uma inversão de raízes proporcionais na inequação rizomática, produzindo um produto que produzia produções produtoras de redutores alfabéticos, sensoriais, minimalistas, reducionistas, deterministas e darwinistas sociais, que, quando multiplicados por X ao cubo, ao quadrado, ao molho branco {que nunca agrada os críticos, [mas em sua simplicidade (nem cor tem) é o meu preferido]} e ao icosaedro infinitesimal, e dividido pela subraiz atômica do átomo de césio de goiânia somado a distorção do contínuo tempo-espaço quadridimensional, resultava em absolutamente nada. E mais do que isso, não servia para aboslutamente nada.

Em apenas três dias após o congresso ter sido realizado, o cálculo já era um sucesso absoluto. Já existiam cadastrados vinte e três mil blogs que contavam as novidades nas pesquisas com o cálculo sensorial alfarrogébrico, sem contar os 2,3 milhões de sites e cem mil trezentos e oitenta e oito (ao cubo) artigos dedicados a explicar como realizar tal cálculo em 12 dicas maravilhosas e como tomar decisões e lidar com pessoas difíceis em trinta minutos. (Nem vou mencionar aqui o sucesso do livro de auto-ajuda: Cálculo alfarrogébrico e você, motivando a iniciativa e liderança).

Durante cinco anos consecutivos e seguidos, sem intervalos, pausas ou lanchinhos rápidos, o C.S.A. (como passou a ser chamado), se tornou o assunto de todos os congressos científicos e mesas de intelectuais das ciências exatas. As mesas de intelectuais das ciências humanas geralmente não tratavam sobre muitos assuntos porque tinham sido vendidas para pagar a hipoteca dos profissionais falidos das humanidades. Já as mesas dos intelectuais das ciências biológicas eram mesas de cirurgia, com muito sangue, choro e ranger de dentes, sem nenhum senso de humor, e muito dinheiro. O absoluto sucesso se devia, é claro, ao cálculo não servir para absolutamente nada. E a cada ano mais pesquisas eram feitas mostrando como, de fato, ele não tinha utilidade alguma. Isso com certeza agradava muito aos críticos, aos cientistas e aos canais de compras pela televisão, que inventaram treze modos diferentes de vender o cálculo sensorial alfarrogébrico, onde a única coisa que diferia era o modo de parcelamento e o valor do frete: quanto mais longe você morava, mais você pagava, quanto mais perto, mais pagava também. Quanto menos queria pagar, mais pagava e quanto menos queria parcelar, mais alto era o preço.

Uma das vantagens advindas com o cálculo sensorial alfarrogébrico para a ciência, é que ele nunca falhava, já que nunca era utilizado. O sucesso e propagação do cálculo pelos países desenvolvidos era tão notável, que em uma assembléia geral das nações unidas e amigas estabeleceu-se como agenda para os países subdesenvolvidos o desenvolvimento do cálculo sensorial alfarrogébrico como condição essencial para o desenvolvimentismo desenvolvido de todos. Essencialmente urgente era abandonar todas as outras agendas (sustentáveis, desigualdades, direitos humanos e outras baboseiras) para a produção do cálculo em todas as universidades, para que não resultasse em nada, e não se chegasse em lugar nenhum, o mais breve possível.


A quem tudo isto não agradava era o Prof. Dr. Olinto Taronto Tolinto, arquinimigo do Dr. Palmilho (inventor do C.S.A.) desde que tinham discutido sobre a cor de um palmito no lanchinho da tarde de um congresso em Madrid, há 13 anos atrás. Desde tal dia não se falaram mais e se tornaram rivais, insultando-se em artigos, livros, papers e sites de relacionamento. Quando o cálculo sensorial alfarrogébrico rendeu o prêmio nobel da física, da medicina e obviamente da paz, ao Dr. Palmilho (numa cerimônia surreal com exibições em 3D, baile à fantasia e missa de sétimo dia), o pobre doutor Olinto não se conformou e resolveu que precisava desbancar o tal cálculo. Foram dias de trabalho a fio, a corda e a remo. Sem descanso, somente parava às terças-feiras para assistir seu seriado policial favorito, um sitcom em que dois detetives caçavam bandidos russos em países islâmicos e no final de cada episódio, salvavam a Amazônia, que era descrita como patrimônio internacional dos Estados Unidos da América. E após três meses de pesquisas matemáticas complicadíssimas, que nem mesmo Janes Joplin entenderia (convenhamos que aquela mulher sabia das coisas), ele chegou ao seu veredicto final, desbancando o cálculo sensorial alfarrogébrico e convocou um congresso em Paris para apresentar sua descoberta.

O congresso teve abertura com a banda U2 e alguns quitutes e biscoitos, que antecediam a conferência do Dr. Olinto. A expectativa era geral. Não há nada que agrade mais a comunidade acadêmica intelectual supra-sumo em segundo lugar, do que brigas intelectuais sobre cálculos e teorias que resultam em nada. O que agrada em primeiro lugar é comida congelada. E então Olinto começou sua exposição. Combinou conceitos da astrofísica e mecânica newtoniana, clamou pela gastronomia e pelas artes e fundiu com equações equinas da zootecnia. Fisicou, matematicou e quimicou até ficar sem fôlego, e usou a lousa inteira e a apagou por cinco vezes, somente rabiscando equações. A conferência estava sendo transmitida ao vivo pelo canal de compras, para cento e noventa e três países diferentes, sendo que em cinquenta por cento deles não havia nem mesmo uma pessoa que entendesse francês, em sessenta por cento não havia energia elétrica para as transmissões, e em setenta por cento não havia água. Mas claramente isso não importa nem um pouco. É fato que não se precisava de água para o cálculo sensorial alfarrogébrico, somente de molho branco.

Em resumo, para não ter que refazer neste breve (nem tão breve assim) relato todo raciocínio do Prof. Dr. Olinto Taronto Tolinto naquela noite, irei explicar suas conclusões a partir de toda a conta. O problema existencial e substancial descoberto a partir de suas análises, era que (pasmem, esse homem é um gênio) o cálculo sensorial alfarrogébrico era tão, mas tão eficaz em não servir para absolutamente nada, que acaba servindo exatamente para isso (não servir para nada) e se servia para alguma coisa, deixava de servir para nada. Assim sendo, toda a sua importância ia pelo ralo de um banheiro qualquer (menos o banheiro do senhor Olinto, que é muito limpo e perfumado com aromas do campo, embora ninguém saiba exatamente o que seja esse aroma). A platéia ficou exasperada com a exposição. Pararam para um lanchinho para pensar a respeito.

No retorno das atividades, era possível perceber duas correntes filosóficas que se formaram durante o lanchinho. A primeira acreditava que o cálculo sensorial alfarrogébrico havia se transformado em um paradoxo, adquirira de fato alguma importância, e por isso não era mais assunto da ciência e deveria ser transferido para o departamento de filosofia, que era o responsável pelos paradoxos. Paradoxalmente, não havia nenhum filósofo ali, já que nenhum tinha dinheiro para pagar o congresso, a viagem ao congresso, os lanchinhos do congresso, ou o aluguel de suas próprias casas. Na verdade todo o ramo da filosofia se encontrava agora dentro do ramo da biologia, por terem se tornado uma espécie em extinção. A segunda corrente acreditava que tudo não passava de uma I.D.O. (intriga da oposição), também conhecida como Intriga do Olinto, ou Intriga do Oboé Australiano (alguma coisa relacionada com cangurus). Que o cálculo ainda era brilhantemente inútil, e que o fato de que ser brilhantemente inútil se tornasse uma inutilidade continuava a não significar absolutamente nada, e deixava a coisa toda ainda mais científica.

O que se segue e encerra esta linda história, é que a diretoria financeira de pesquisas achou a oportunidade interessantíssima para redirecionar os gastos das pesquisas do cálculo sensorial alfarrogébrico para outros ramos, como os ramos de oliveira, mangabeira ou seringueira, já que todos tinham belos jardins ornamentados em suas casas, e decidiram que o C.S.A., após dez anos de sucesso absoluto já estava ultrapassado, obsoleto, sem graça, sem sal e de alguma forma era útil, o que tirava todo o seu mérito acadêmico, e os financiamentos foram encerrados, abrindo caminhos para novas pesquisas que pudessem servir para não servir para absolutamente nada. Foi assim que toda essa história sem importância alguma passou a ser importante, e exatamente por isso, é que não foi mais contada por ninguém. Graças ao bom deus (que a ciência postula não existir, mas que todo mundo agradece, criando outro paradoxo, que é assunto da filosofia, e por consequência, da biologia), hoje a ciência evoluiu muito, e não se preocupa mais com coisas tão banais, e sim com o desenvolvimento de cabelos sintéticos para os calvos, o desaparecimento das rugas, a construção dos monumentais hotéis luxuosos para congressos, descobrir com que pessoa famosa você tem o dna mais parecido e a pauta de sempre, pesquisar e descobrir aquilo que ninguém entenda, todo mundo fale sobre, e não signifique absolutamente nada.

Dia do professor

Dessa vez só vou reproduzir aqui algo que li no blog do Cristovam Buarque:

"Hoje (15/10) é dia do professor e da professora
O Brasil precisa dos professores e das professoras. Mas ainda não reconhece o valor desses profissionais. Há decadas eles e elas têm sido marginalizados. Para fazermos uma revolução da educação precisamos também revolucionar a carreira do magistério. Garantia, por meio do orçamento da União, salários dignos e, por meio de um processo social de valorização, que a carreira seja respeitada, com concurso nacional, formação continuada e tempo para estudo e preparação de aulas. A lei do Piso Salarial foi um bom começo, mas precisa ser repeitada. Depois dela, vem o processo de federalização e valorização do magistério."¹

¹Grifos nossos.

Fonte: http://buarque.org.br/